Arquivo de Setembro, 2005|Página de arquivo mensal
Autoridade em causa
Público.pt: dez anos
Em 1999, o Público.pt deu um salto importante, ao introduzir o serviço Última Hora, dando corpo a uma das principais exigências do ciberjornalismo: a imetiatez. Longe ainda dos padrões de diários como El País (para não irmos mais longe), ainda assim tem cumprido.
Outra marca distintiva, e muito positiva, foi a decisão de nomear um director próprio para o Público.pt., José Vítor Malheiros, que esteve também na origem do projecto.
O Público.pt tem, por isso, potencial para crescer e melhorar, pois há muito a fazer, em particular nos capítulos da interactividade, da hipertextualidade, da multimedialidade e mesmo da navegabilidade. O texto tem de ser equilibrado com material multimédia, de modo a aproximar este jornal de um verdadeiro medium noticioso da Web.
Ainda assim, dez anos passados, o Público.pt mantém-se um pequeno oásis no panorama deprimente e amador do ciberjornalismo português.
maisautárquicas.com: uma boa ideia
O grupo Impresa teve uma boa ideia ao lançar o sítio maisautárquicas.com., uma plataforma aglutinadora de conteúdos da SIC, do Expresso e da Visão para a cobertura das eleições autárquicas. Onde o sítio falha mesmo é no “embrulho”: o grafismo é algo morno, não há uma articulação integrada dos diferentes elementos multimédia e a exploração das potencialidades do hipertexto deixa a desejar.
Não obstante, trata-se de uma iniciativa louvável, ainda para mais quando é tida num contexto de grande marasmo do ciberjornalismo português. Acresce que lança algumas pistas interessantes (noutros países há muito concretizadas) sobre o funcionamento multitextual dos grupos de comunicação.
Quem tem medo da Prisa?
De leituras: a Internet e os homens arcaicos
Alain Finkielkraut e Paul Soriano são dois nomes que, para muitos, caberão naquela categoria. Ao primeiro, escritor e professor de filosofia em França, costumam os adversários chamar neo-reaccionário. O segundo dirige um instituto de prospectiva, virado para as questões da sociedade em rede.
As suas opiniões sobre a Internet estão reunidas no livro Internet, o Êxtase Inquietante, publicado por cá em 2002. Para tecnófilos militantes, esta obra será um amontoado de provocações. Para quem acreditar que da diversidade de opiniões nasce o interesse, é de ler.
Finkielkraut olha de lado para a revolução digital. E diz continuar desligado das “forças vivas”, «mantendo as novas máquinas à distância, barricando-me de certa maneira no que ficou para trás, agarro-me à minha caneta, à minha papelada, e aos meus amigos queridos, os livros». Abomina o ecrã. Zurze quem acredita que a Internet na sala de aula “produz” melhores alunos. Teme o fim da privacidade e da intimidade, a vigilância omnipresente. Um resistente, portanto, ao «democrático total da técnica desenfreada». Como resistir a provocações deste calibre?
E explana assim: «A Internet é o perigo que corre a liberdade quando se pode conservar o traço seja do que for, mas é também o perigo que fazemos correr aos outros e a nós próprios quando gozamos de uma liberdade sem limites.»
E pergunta ainda o seguinte, de uma forma pertinente e de grande fôlego: «Apresentam-nos a Internet como um magnífico instrumento de informação e de comunicação, mas para quê tanta informação, tanta comunicação? E o lugar para o resto – para tudo o que na nossa vida não depende nem da informação nem da comunicação? Que lugar fica para a contemplação? Que lugar para a admiração? Que lugar para a ruminação? Que lugar para a solidão?»
Quem não gostar destas inquietações existenciais de Finkielkraut pode sempre responder, em tom pragmático, com aquela frase de uma canção dos U2: «You miss to much these days if you stop to think».
Soriano, por seu lado, preocupa-se com a invasão das “próteses técnicas” no meio ambiente humano, colocando-nos sempre disponíves, sempre acessíveis na rede, cujo tempo é «um eterno presente que é uma presença permanente». A rede, funcionando em registo de interrupção frenética, «aniquila os grandes momentos que estruturam a vida dos homens arcaicos».
Leia-se, ainda: «As próteses técnicas com que nos equipamos febrilmente (a começar pelo telemóvel) assemelham-se sob este aspecto às pulseiras electrónicas dos presos no meio da cidade.»
Em dois pequenos textos, Finkielkraut e Soriano levantam questões e colocam problemas que dão para uma boa discussão sobre as novas tecnologias, quase sempre alvo de adoração, poucas vezes objecto de discussão. A sério.
O Google vai na conversa
Na edição de hoje do CiberPa@is, Antonio Espejo escreve sobre o Google Talk, um programa, ainda em versão beta, que permite aos utilizadores da Net falarem uns com os outros. Dantes, os chats eram à base de texto. Agora, pode ouvir-se, com qualidade, a voz dos amigos.Expresso Online mexe
Há novidades no Expresso Online e, diga-se de passagem, ainda bem. Um ex-repórter fotográfico, Luiz Carvalho, é o novo editor, que substitui Mário Carvalho, e já estará a preparar alterações no grafismo e nos conteúdos do sítio.
Katrina: recursos online
Os leitores da Online Journalism Review resolveram criar uma lista de hiperligações para sítios profissionais e de cidadãos que estão a cobrir o furacão Katrina. Sitios noticiosos, blogues, listagens de pessoas desaparecidas, sítios de assistência a desastres, como a Cruz Vermelha, wikis (Katrina Help Wiki), sítios com informação de contexto (bases de dados, mapas, etc.). Uma boa ideia no meio da enorme catástrofe.
Entretanto, na Wikipedia, a enciclopédia livre da Internet, já está disponível uma entrada sobre o Katrina. E trata-se de uma entrada fabulosa, com muita informação relevante compilada. Faz-se uma exploração exaustiva de hiperligações, fornecendo-se ao mesmo tempo enquadramentos, estatísticas, efeitos económicos, etc.. No topo da entrada, um aviso à navegação: «Este artigo documenta um acontecimento em desenvolvimento. A informação pode mudar rapidamente.» Ou não estivessemos nós na Internet.
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